A empreitada é a segunda etapa de um projeto que começou há dez anos. Valério Gomes Neto, um dos herdeiros da família que controla o grupo Portobello, conhecido pela indústria de revestimentos cerâmicos, criou o bairro Pedra Branca para resolver um problema que enfrentava numa fazenda. A área de 250 hectares estava ameaçada pelo crescimento desordenado da cidade. Uma alternativa seria simplesmente cercar a área e criar um condomínio fechado. Em vez disso, porém, Gomes decidiu fazer algo diferente: criar um bairro planejado. Doou um terreno para a instalação de uma universidade, a Unisul, e atraiu empresas para seus domínios. Hoje, cerca de 40 companhias estão lá instaladas, entre elas uma central de atendimento da empresa de serviços de tecnologia Tivit. Juntas, elas geram cerca de 4 500 empregos. A infraestrutura montada inclui estação de tratamento de esgoto, uma das únicas da região, e um conjunto de vias para caminhadas em meio a bosques e no entorno de lagos. A ideia agradou, milhares de lotes foram vendidos e hoje há cerca de 4 000 pessoas vivendo lá, de acordo com as contas da empresa. O bairro entrou em sintonia com a onda de crescimento da região da Grande Florianópolis, que atraiu muita gente de outros estados em busca de qualidade de vida. Agora, o Pedra Branca entra numa segunda - e mais ousada - etapa.
Na busca por referências para orientar a expansão do negócio, Gomes se deparou com o que se conhece como new urbanism, um movimento difuso que prevê um novo tipo de cidade. O new urbanism preconiza, entre outras coisas, o chamado uso misto dos bairros. Isso quer dizer que, em vez de uma cidade ser dividida em zonas diferentes para residências, escritórios, comércio e lazer, tudo deve estar integrado nos bairros, para elevar a qualidade de vida. Para isso ser viável em Pedra Branca, porém, a densidade populacional deveria ser relativamente alta - o que vai levar a uma das primeiras mudanças no bairro. Das pranchetas do Pedra Branca começaram a brotar dezenas de prédios. E, em vez de investir apenas em projetos de edifícios sustentáveis, incorporando as tecnologias já existentes, surgiu o esboço de algo muito mais ousado: um bairro inteiramente sustentável. "O new urbanism é uma religião", diz Gomes, "e me converti a ela."

Fé ajuda, mas não ergue prédios. Um dos primeiros desafios do projeto, porém, já foi vencido: o teste do mercado.
Fonte: Vladimir Brandão, Revista Exame - Junho 2010

